Não tem jeito. De tempos em tempos sempre ressurge alguma variação do lugar comum de que, no Brasil, todo mundo quer ser doutor. Não no sentido de fazer um doutorado de cinco anos, mas no de ter um diploma de ensino superior.

Desta vez, a frase veio da boca de Milton Ribeiro. O terceiro ministro da Educação de Jair Bolsonaro praticamente repetiu uma declaração dada pelo primeiro titular da pasta, Ricardo Vélez, em 2019.

No início de sua breve passagem pelo MEC, o colombiano disse ao jornal Valor Econômico que buscava um modelo parecido com o de países como a Alemanha, forte no ensino profissionalizante, e que não faria sentido um advogado estudar anos para virar motorista de Uber. “As universidades devem ficar reservadas para uma elite intelectual”, disse

Nesta segunda-feira (9), Ribeiro também citou a Alemanha e os motoristas para concluir algo semelhante.

“Com todo o respeito que tenho aos motoristas, é uma profissão muito digna, mas tem muito engenheiro, muito advogado dirigindo Uber porque não consegue colocação devida. Mas se ele fosse um técnico em informática estaria empregado, porque há uma demanda muito grande”, disse. “Universidade na verdade deveria ser para poucos.”

Defender a elitização das universidades pode pegar mal, mas é apenas uma opinião. Defendê-la citando exemplos de países desenvolvidos, no entanto, é um erro, pois o argumento não tem base factual.

O Brasil destoa do mundo desenvolvido no acesso às universidades justamente porque suas universidades ainda são para poucos —e, com os estragos da pandemia e a inação do governo federal, tendem a ser para menos ainda.

Relatório recente da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) mostra que, em 2018, 21% dos brasileiros de 25 a 34 anos tinham ensino superior completo, contra média de 45% do clube dos países desenvolvidos no qual o Brasil quer ingressar.

Na Alemanha, a proporção é menor que a média, mas ainda de 32%. E, se de fato o ensino profissional do país da chanceler Angela Merkel é um e exemplo internacional, ele não é exatamente garantia de renda.

Relatório da própria OCDE mostra que, embora os concluintes de cursos profissionalizantes na Alemanha recebam inicialmente mais do que os dos cursos acadêmicos, os ganhos aumentam pouco com a experiência.

Uma das sugestões da organização para melhorar isso é justamente ampliar o acesso ao ensino superior —o que não quer dizer fazer uma graduação acadêmica. Há diversos cursos superiores tecnológicos de excelente reputação e retorno financeiro.

O Brasil, por sua vez, patina nas duas frentes, tanto na educação superior como na profissional.

Sem uma política federal clara, o ensino profissionalizante está com as matrículas estagnadas. Já o superior teve uma queda de quase 9% no número de alunos em cursos presenciais particulares neste ano, segundo o Semesp, sindicato das mantenedoras.

O setor privado responde por quase três quartos das matrículas no país, mas, após uma série de indícios de descontrole, o principal programa de financiamento estudantil, o Fies, foi drasticamente reduzido, e nada foi colocado em seu lugar.

Também na educação básica, anunciada como prioridade, o MEC do governo Bolsonaro tem poucas realizações a mostrar. Como revelou a Folha, a pasta encerrou 2020 com o menor gasto na área na década. Isso num ano em que milhões de alunos ficaram fora da escola, com dificuldades com equipamento e conexão de internet.

Diversos trabalhos demonstram que, sem melhora no ensino, o país perde produtividade.

Assim, sem crescimento econômico e sem um olhar para todas as áreas da educação, o Brasil provavelmente terá não só advogados mas também técnicos em informática, eletrônica e outros egressos de cursos profissionalizantes dirigindo carros de aplicativo.

Talvez seja mais uma novidade para um ministro que, na mesma entrevista em que defendeu universidades para poucos, disse ter ficado surpreso as atribuições do cargo que assumiu.

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